Misericórdia. Mercês. Quatro-Caminhos…
Sigo por este!
Casa decrépita, monte de livros abandonados, ao fundo da escada. Órfãos de leitura. Por compaixão, o passante revolveu…
Logo ouviu gritos:
- Chapitô ! Chapitô! Chapitô!...
Quem vive!? Apeteceu-lhe dar de troco:
«…. e cabriola , rebola, pega fogo à multidão…»
Mas? Não seria aquilo! Escorregava-lhe a memória, de Guilherme de Azevedo para José Régio. E agora?
Teria de procurar nos versos do outro, de um palhaço coxo, seu conterrâneo à distância de séculos:
«Correi , subi, voai, num turbilhão
fantástico
por entre as saudações
da turba que festeja o semideus
elástico
nas grandes ascensões.»
Agora sim!
A farsa continua.
Remexendo no monte de livros, caiu-lhe aquele. Só poderia vir dali o grito: «Chapitô! »
Ah é? Pois, vou levar-te comigo. Aqui, ainda te lançam à guilhotina. À fogueira…Para que serve nos nossos dias um livro abandonado? - digam-me lá.
2
Eis então, Estimadas e Estimado Vizinhos do Livro, o que eu vos trago, levantado da calçada. O nosso próximo…desafio:
Um palhaço! Nem mais.
Adriano, Quinito… Emiliano…
Emiliano e um riso trágico de quem tem a filha no velório e vem ali ao circo, animar o delírio de tantas meninas e meninos. Está na hora, é o teu número! Contem as lágrimas.
E nisto…
Opina o nosso Augusto que a única guerra legítima é a do palhaço-rico com o seu confrade pobre…
«… Surpresa, Mamã, em nossa casa, eu já vi uns sapatões iguais aos do palhaço Vira-Vento. Mamã, Mamã, ele também mora na nossa casa?»
Ficou Marta sem resposta…
- … um palhaço é uma pessoa, não é um espantalho no ervilhal, acho eu. – dirá a Vizinha C…
Nem um D. Roberto, um saltimbanco… Não precisa de coroa, basta-lhe o nariz vermelho. E logo lhe chamam doutor… Rei dos Circo…
- Os palhaços são humildes! - acrescentou alguém do nosso Grupo.
- … também tenho palhaços ao fundo da memória. De quando levava os meninos, da família onde estava a servir, ao Coliseu. No inverno. Riam, riam, riam e, quando chegavam a casa,diziam aos pais que quem tinha rido mais tinha sido eu, a Maria!...
E mais pretende a declarante:
E havendo aniversário, a alegria dos meninos completava-se num camarote do circo, repartindo o lanchinho trazido de casa. Em saquinhos de plástico. Chocolatinhos...
"Nā... Nā...O Coelhinho vai com o Pai Natal e o Palhaço ao Circo! - é uma achega da Natalina.
Adiante.
Hoje aqui não há caras pintadas nem máscaras nem carrancas! Não queremos ter cá carrancudos!
Há um livro à nossa frente..Vamos ascendê-lo aos céus da leitura.
Vamos levitar!
Joaquim M Beja
”
Notas:
1. Este texto não seria possível, sem o contributo de Lídia , Noémia , Natalina, Celeste , Augusto, Elvira , Alzira , Luisa... e Joaquim
2. Pretende ser, neste blogue, a apresentação da segunda série dos Encontros de Leitura que, no passado realizámos, com gosto e determinação durante alguns anos.